19 de setembro de 2017

Personalidades Literárias • Álvares de Azevedo

Fascínio pela morte e o desencanto pela vida. Pessimismo, melancolia, paixão exacerbada, individualismo e subjetivismo. Misture tudo e após uma ou duas (ou três, ou quatro...) taças de vinho, você terá um exemplar perfeito do que foi o ideal do Romantismo brasileiro, um movimento que contagiou uma legião de jovens escritores a dedicarem suas vidas e obras à propagação de uma literatura que representava o "mal-do-século", tingindo de preto todas as palavras enfeitadas que foram proferidas anteriormente pelos poetas da época.

O primeiro autor a ter sua vida retratada na seção Personalidades Literárias é Álvares de Azevedo, uma alma atormentada cujo espírito tocou a última canção em sua lira aos 20 anos, deixando uma coletânea de produções inspiradoras e misteriosas realizadas em apenas 4 anos, que arranca suspiros e indagações até hoje dos maiores admiradores do tema.


Primeiros passos

Álvares de Azevedo, cujo nome completo é Manuel Antônio Álvares de Azevedo, nasceu em São Paulo no dia 12 de setembro de 1831. Membro de uma família com raízes privilegiadas, aproveitou muito pouco dos ares paulistas em sua infância, mudando-se para o Rio de Janeiro com sua família quando tinha apenas dois anos. Seu pai era um advogado, mas suas grandes paixões eram mesmo a mãe e a irmã, saudades essas que levou consigo até o fim de seus dias. Foi no Rio de Janeiro que Álvares iniciou seus estudos, destacando-se rapidamente e mostrando ser um aluno exemplar em todos os campos. Alguns anos após sua mudança, Álvares teria o primeiro encontro com aquela que seria sua eterna companheira: a morte. Seu irmão mais novo falece quando Álvares tinha 4 anos, deixando um imenso vazio dentro de seu ser, perda esta que certamente influenciou todo o restante de sua obra e vida. Por causa desse choque, o menino cai em febre e não se recupera de sua fraqueza até os 8 anos de idade, o que fez seus pais descuidarem um pouco dos seus estudos. Só após sua recuperação é que pode finalmente iniciar sua educação formal em escolas tradicionais da cidade. Após dar seus primeiros passos rumo à juventude, retorna à São Paulo em 1847 e inicia a universidade seguindo a mesma carreira do pai; se torna aluno da prestigiada Faculdade de Direito de São Paulo, destacando-se pela compenetração e dedicação aos livros.


As duas faces de um anjo

Lord Byron: a maior inspiração de Álvares
A entrada na faculdade também simbolizou para Álvares a entrada num mundo novo, que refletiria o seu interior como nada havia refletido até agora: uma alma solitária, atormentada e sofrida. Ao mesmo tempo, percebe oportunidades de desenvolver sua intelectualidade como ainda mais avidez, aproveitando a época para fundar juntamente com amigos a Revista Mensal da Sociedade Ensaio Filosófico Paulistano, periódico este que perdurou por 13 anos. Apreciador das artes, história, filosofia e literatura, se vê cada vez mais motivado para compreender o mundo à sua volta e desbravar os grandes clássicos, sobretudo os ingleses. É nessa época também que conhece e se relaciona com outros grandes autores românticos que o ajudaria a modelar toda sua escrita, como Aureliano Lessa e Bernardo Guimarães, sendo esses seus melhores amigos por toda a vida. Moraram juntos numa república e juntos também produziam seus textos, improvisavam saraus regados à vinho e música clássica e filosofavam a respeito de seus ideais de vida; devido à tantas ideias parecidas, fundaram assim a Sociedade Epicureia, uma aliança estudantil que funcionava o mesmo local da república onde moravam, chamado Chácara dos Ingleses, e cuja inspiração eram os escritos de autores ingleses ultrarromânticos como Lord Byron. Essa sociedade é até hoje cercada por muito mistério! O local ficava onde hoje está localizada a Praça Almeida Júnior, no bairro da Liberdade, em São Paulo, em frente à um cemitério. Provavelmente foi também nas reuniões da Sociedade Epicureia que Álvares teve a chance de descobrir em si mesmo as temáticas que mais apreciava e que mais teriam influência em suas produções; todos os seus membros eram ultrarromânticos, apaixonados pelo subjetivismo, ironia, dualidade de sentimentos, adoração da morte, melancolia, fuga da realidade e desencanto de viver. Ali, os jovens viam-se longe de julgamentos familiares e convenções sociais para se tornarem membros de uma fraternidade rebelde cujo maior objetivo era dar asas à imaginação e realizar seus pensamentos mais secretos - nem que fosse através de peças de teatro e encenações.

Apesar de estar sempre envolvido nessa atmosfera fantástica, biógrafos e estudiosos da vida do autor garantem que Álvares foi apenas um mero espectador dessa vida boêmia, uma vez que seu estado de corpo e espírito não permitia tais extravagâncias como abuso de alcool, sexo desregrado e saraus que varavam a madrugada. Para eles, toda essa fantasia ficava exatamente onde nasceu: na imaginação do autor, sem nenhum encontro com a realidade. Deixando de lado os rumores, única verdade plena e absoluta é que Álvares poderia ser considerado um verdadeiro prodígio de sua geração, pois conseguiu recuperar todo o tempo perdido em sua infância devido à saúde frágil e quase finalizar seus estudos (se não fosse pela sua morte prematura) num tempo recorde, com cerca de 4 anos de vantagem perante outros jovens de sua idade.


"Que tragédia, meu pai!"

Estas foram as últimas palavras que proferiu Álvares nos braços do pai, em 25 de abril de 1852, antes de falecer. Álvares sempre possuiu uma saúde abalada, o que o tornou alvo fácil para uma tuberculose pulmonar, doença que vitimou quase todos os outros poetas da sua geração. Após ter sofrido uma queda de cavalo numa viagem de férias com sua família, no Rio de Janeiro, Álvares desenvolveu um tumor na fossa ilíaca, o que agravou ainda mais seu estado tuberculoso, ocasionando sua morte. O poeta morreu saudoso, sendo as saudades de casa, da mãe e da irmã as maiores e mais tristes companheiras de sua vida, culpadas por entristecerem e entediarem o poeta aos poucos, levando embora as últimas gotas de vida que habitavam seu ser.

O poeta pareceu prever a própria morte ao escrever, um mês antes de sua partida, o poema Lembrança de Morrer, que relatava suas saudades de casa e desesperanças de viver:


"Quando em meu peito rebentar-se a fibra,
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nenhuma lágrima
Em pálpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

...

Só levo uma saudade... é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada,
Que por minha tristeza te definhas!
De meu pai... de meus únicos amigos,
Pouco - bem poucos... e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.


Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida."


Os frutos de uma árvore doente

Álvares deixou este mundo antes de completar o curso de Direito - faltando apenas 1 ano para sua conclusão. Logo, também não viveu o suficiente para ver os lamentos de sua alma serem publicados e espalhados pelo país, titulando-o como um dos mais jovens e consagrados autores da segunda fase romântica da literatura brasileira. Todas as suas obras foram publicadas após sua morte.

Lira dos Vinte Anos (1853): uma antologia poética dividida em três partes, mas inicialmente pensada por Álvares para dividir-se em apenas duas. A obra possui fortes representações metafóricas de personagens da obra A Tempestade, de William Shakespeare - a primeira parte representa Ariel, um anjo bom, que traz em suas páginas poemas ligados ao sentimentalismo, ultrarromantismo, idealização da mulher como figura pura e perfeita, amor platônico e idealização romântica. A segunda parte representa Caliban, um demônio, que traz consigo poemas satíricos, irônicos, que remetem à loucura, morbidez e devassidão.


• Macário (1855): uma peça de teatro dividida em dois episódios, que marcam um encontro entre um rapaz e uma figura que denomina-se Satã, partindo em viagens que não sabemos ao seu término se foram sonhos lúcidos ou encontros reais com o Inominável.

Noite na Taverna (1855): uma antologia de contos que traz cinco rapazes enebriando-se madrugada afora numa taverna contando suas aventuras vividas em cenários que se perdem entre loucura, ultrarromantismo, morbidez, amores não-correspondidos e alcoolismo.


Os livros de Álvares de Azevedo refletem perfeitamente a dualidade humana, já que descrevem a vida, a morte e as mulheres ora com admiração, ora com leviandade. O mesmo homem que escrevia versos apaixonados à mulheres que nunca existiram satirizava a capacidade feminina de enlouquecer um homem no sentido mais vulgar possível. O mesmo poeta que declamava doces versos em nome de jovens virgens descrevia frequentemente seus personagens mais importantes enebriados com prostitutas perdidas em tavernas. O mesmo poeta que refletia suas personagens femininas à figura da divindade divertia-se com as crenças humanas promovendo encontros de seus personagens com Satã. Álvares de Azevedo era a representação mais genuína de uma ponte entre o puro e o profano, o aceitável e o escabroso, a mansidão e a rebeldia; era a representação mais pura e simples dos anseios e segredos que podem esconder a alma e mente humana.


Sonho dentro de um sonho

Busto de Álvares de Azevedo
Localizado no Largo São Francisco,
em São Paulo.
É verdade que a vida de Álvares de Azevedo parece ter saído de um dos seus próprios livros. Mas assim como em seus livros, sua existência também apossou-se de todo esse mistério e permanece até hoje intrigando admiradores e estudiosos. Afinal, qual das faces pertenceria ao verdadeiro Álvares? O casto e frágil menino introspectivo que dedicara seus dias ao lápis e papel, ou o profano homem que junto com seus amigos desonrava ainda mais as meretrizes de São Paulo, em necrópoles afora pela madrugada? Será que todas essas histórias que contam a respeito da vida do autor não passam de meras narrações provocativas imaginadas apenas para nos deixar ainda mais curiosos a respeito dos mistérios que o jovem escondeu durante sua vida? Fascinante indagação que provavelmente nunca terá uma resolução! O fato é que quem admira o poeta Álvares de Azevedo assim o faz justamente pelo seu mistério e pelo encantamento que suas obras possuem ao encontrar-se com uma possível realidade.

A questão é que todas as histórias mais fantásticas e mesmo toda surrealidade escrita por Álvares de Azevedo jamais apagarão a verdadeira estrutura do autor: um jovem doente, frágil e dono de um coração apunhalado pela morte desde os primeiros dias de vida. Álvares de Azevedo sempre será um grande mistério na literatura brasileira. Com suas obras, defendia que o amor verdadeiro só poderia ser encontrado após a morte... e meu maior desejo é que ele tenha de fato encontrado nela o amor que tanto buscou em vida. Álvares marcou a história da poesia brasileira, sonhou absurdamente, e acima de tudo, esmerou com todo o seu coração cada letra que suas mãos escreveram e cada pessoa - real, personificada ou imaginária - que passou pela sua vida. É por isso que não há frase que poderia descrever essa personalidade tão bem, quanto aquela que seu eu-lirico pediu para ser escrita em seu próprio epitáfio: foi poeta - sonhou - e amou na vida. E como amou! ♥

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