11 de outubro de 2017

Artigos • Walt Whitman e o florescer da poesia norte-americana

Quando se pensa em literatura, cada pessoa caminha através de uma linha própria de raciocínio, se lembra especificamente de um gênero em especial que lhe agrade e reconhece autores que fizeram história em suas leituras. Mas o fato é que muitas vezes nos atemos àquilo que já estamos acostumados a ler, e perdemos a chance de aproveitar grandes clássicos que dormem esquecidos em prateleiras de sebos e bibliotecas públicas.


Essa semana finalizei uma disciplina da faculdade chamada Literatura e Cultura Norte-Americana e Canadense, que me fez pensar bastante a respeito das origens das literaturas que consumimos hoje: quem foram seus precursores? Quais foram as obras mais importantes desse período? Qual impacto que esses escritos possuem na nossa sociedade hoje? E foi justamente realizando uma atividade dessa disciplina que resolvi pesquisar um pouco mais sobre esses grandes títulos e o resultado disso foi o post que hoje trouxe para vocês. Vamos voltar ao passado e conhecer hoje um pouco mais sobre o autor norte-americano Walt Whitman e sua magnum opus Folhas de Relva.


Folhas de Relva, verdadeiro clássico da literatura mundial, foi lançado em 1855 e representou a consolidação de Whitman como pai da poesia norte-americana. O contexto histórico da obra traz consigo os Estados Unidos da década de 1840 de uma perspectiva completamente diferente da que temos hoje; perdurando principalmente nos períodos de 1845 a 1856, o país foi tomado por níveis elevadíssimos de corrupções, o que também foi um dos motivos que afastou Whitman do jornalismo e da mídia, recluindo-o na poesia e nas artes. A poesia, segundo o autor, era o único meio que ainda restava para unificar seu país e os povos que coexistiam ali, resgatando os ideais de igualdade e democracia que haviam sido perdidos graças ao meio político avançando sobre os interesses das massas. Para o autor, os livros eram soluções muito mais eficazes para transformarem o mundo com novos ideais, do que as guerras. Infelizmente a visão utópica e sonhadora de Whitman não foi suficiente para transformar seu país e os que estavam diretamente relacionados com ele, e fora obrigado a assistir de mãos atadas a eclosão da Guerra Civil em 1861; o próprio irmão de Whitman trabalhou ativamente como enfermeiro voluntário nos resgates e operações realizadas em hospitais improvisados, o que marcou com ainda mais intensidade os ideais sociais e igualitários de Walt Whitman.

Mas afinal, quem é Walt Whitman? Um menino humilde nascido em Nova York, que muito jovem mudou-se para o Brooklyn e iniciou sua vida trabalhando com carpintaria e tipografia. Mais tarde, ingressou em jornais e iniciou sua carreira como editor, impressor, jornalista e outras funções que o colocavam próximo das mídias e da escrita; foi nessa época também que o autor começou a conhecer um pouco mais sobre política e ideais democratas. Um dos fatos mais interessantes que podemos destacar sobre Whitman é que ele era um grande autodidata, tendo conhecimentos acima de média sobre vários assuntos, mas que foram conquistados por si próprio, uma vez que o autor frequentou pouco a escola tradicional. Já em 1852 resolve afastar-se do meio jornalístico para dedicar-se exclusivamente à poesia e à propagação de seus ideais por meio de uma escrita própria e revolucionária; dois anos depois, Whitman já estava completamente envolvido nos rascunhos do que seria uma das obras mais representativas da literatura norte-americana: Folhas de Relva.


O livro começou a ser escrito de modo simples, contendo apenas 12 poemas de autoria de Whitman. Podemos dizer que a obra o acompanhou durante grande parte de sua vida, já que em cada nova edição lançada eram adicionados novos poemas e retoques aos antigos eram feitos, levando o título a chegar até sua nona edição – a chamada Edição do Leito de Morte – publicada aqui no Brasil pela editora Iluminuras e traduzida por Rodrigo Garcia Lopes. A escrita de Whitman em Folhas de Relva era tão despretensiosa que a primeira edição do livro foi lançada com um frontispício que trazia uma gravura retratando a si mesmo, vestido de operário com chapéu e camisa aberta na altura do peito – nem mesmo o nome do autor era mencionado na obra. Ao final de sua vida, Whitman já contava com mais de 400 poemas em seu compêndio, que eram frequentemente reorganizados e reescritos com mais perfeição. Cada detalhe era pensado para que cada texto fosse único e especial, de modo que se tornassem uma extensão em especial de algum aspecto da vida e personalidade do autor. Os poemas de Whitman eram extensões dele próprio e de seus sentimentos mais profundos.


O desenvolvimento
Certamente um dos aspectos que mais chamam atenção em Folhas de Relva é o seu desenvolvimento revolucionário, que propõe uma nova organização da poesia em versos livres dispostos no papel, quase beirando a prosa. A obra também se torna memorável por abranger tantos assuntos diferentes dentro de um mesmo exemplar, o que se torna justificável quando lembramos que cada poema traz consigo um pedaço de Whitman na essência. O poeta fala desde sentimentos humanos, natureza e vida cotidiana até sexo e política. É indiscutível sua importância e significatividade, tanto para a literatura norte-americana quanto para a literatura mundial; além disso, Folhas de Relva ainda influenciou tantos outros grandes autores, como Ezra Pound e Allen Ginsberg, a moldarem suas estilísticas e refletirem suas ideias e valores através da escrita. Whitman foi um homem de coragem, que ousou não apenas ao abandonar os padrões dos versos livres e metrados, mas também, ao mostrar que seus valores e ideias eram mais importantes do que qualquer outra coisa em sua vida. E conseguiu demonstrar isso bem, através de tudo o que escreveu.

Para elucidar com mais clareza a versatilidade dos versos de Whitman e da extensão de assuntos tratados por ele, vejamos abaixo alguns trechos da obra em que são nítidas as características de estilo do autor, dentre elas a liberdade na disposição dos textos até a ausência de rimas ou métricas.

"O sexo contém tudo: corpos, almas, significados, provas, purezas, delicadezas, resultados, avisos, canções, comandos, orgulho, saúde, o materno mistério, o leite seminal, todas as esperanças, benefícios, dádivas, as paixões todas, amores, belezas, gozos da terra, todos os governos, juízes, deuses, pessoas com seguidores no mundo, estão contidos no sexo como partes dele mesmo e sua justificação."
Whitman e o sexo

"Allons! Quem quer que sejais, vinde viajar comigo! Em viagem comigo encontrarei o que não cansa nunca. A terra não cansa nunca, a terra é rude, quieta, a princípio incompreensível, a Natureza é rude e a princípio incompreensível, não percais a coragem, continuai, existem coisas divinas bem escondidas, eu vos juro que existem coisas divinas mais belas do que possam as palavras dizer."
Whitman, a natureza e as divindades

"Aos que falharam, grandes na aspiração, aos soldados sem nome caídos na vanguarda do combate, aos calmos e esforçados engenheiros, aos pilotos nos barcos, aos super-ardorosos viajantes, a tão sublimes cantos e pinturas sem reconhecimento - eu gostaria de erguer um momento coberto de louros alto, bem alto, acima dos demais: A todos os truncados antes do tempo, arrebatados por algum estranho espírito de fogo, tocados por morte prematura."
Whitman e a guerra

"Não vos vexeis, mulheres: em vosso privilégio tendes fechados os outros e está a passagem dos outros, vós sois os portões do corpo e sois os portões da alma. A fêmea tem todas as qualidades e as tempera, está no seu lugar e move-se com perfeito equilíbrio, ela é todas as coisas devidamente veladas, passiva e ativa ao mesmo tempo, é para conceber filhas bem como filhos e filhos bem como filhas."
Whitman e a mulher


Traduções e contribuições
Se ter escrito tudo isso já rendeu à Whitman o trabalho de uma vida inteira, imaginamos então que traduzir Whitman certamente não é uma das tarefas mais fáceis. O próprio autor deixa isso claro através de uma frase clássica: "Sou também nem um pouco domável, sou também intraduzível". A tradução mais reconhecida da obra nasceu das mãos do jornalista Rodrigo Garcia Lopes, que também é poeta e compositor, e chegou a concorrer ao prêmio Jabuti de 2008, na categoria de Melhor Tradução, como reconhecimento de seu excelente trabalho executado. Essa tradução foi publicada pela editora Iluminuras, no ano de 2005. Existem também mais três tradução principais da obra de Whitman: a primeira, uma tradução popular de Luciano Alves Meira, publicada pela editora Martin Claret no mesmo ano da tradução de Lopes; a segunda, mais polêmica, publicada em 2012 pela editora Hedra, tendo Bruno Gambarotto como tradutor responsável, e que é tida por alguns estudiosos como a tradução que mais se distancia da sonoridade e dos versos livres originais escritos por Whitman; e a tradução mais antiga da obra, ainda feita na época em pequenos fragmentos, realizada por Geir Campos e publicada pela editora Brasiliense, em 1983.

Tanto a obra quanto o autor foram e ainda são amplamente estudados mundo afora, inclusive no Brasil. Por serem figuras tão significativas na literatura mundial, é compreensível que esses estudos fossem indispensáveis para tentar se compreender um pouco mais sobre a mente do autor e os frutos dessa árvore. Whitman e suas folhas voaram por aí muito mais do que o esperado, tornando-se temas para inúmeras teses, dissertações, livros e estudos literários. Uma das obras mais importantes que já foram publicadas sobre o autor certamente é Walt Whitman – A Formação do Poeta, escrita por Paul Zweig e lançada em 1984 pela editora Zahar. O livro traz preciosas informações sobre o autor e críticas acerca de suas produções, ajudando o leitor a compreender um pouco mais do histórico das obras do autor. O livro encontra-se esgotado no Brasil, mas ainda é possível encontrar algumas versões antigas sendo vendidas em sebos e sites especialistas na venda de livros usados.


Uma das indagações que ficam na cabeça do leitor provavelmente é: "Por que o título Folhas de Relva?". Seguindo a linha de pensamento do tradutor Rodrigo Garcia Lopes, poderíamos entender o título como uma metáfora para exemplificar aquilo que Whitman desejava que sua poesia se tornasse: algo vivo e que se espalhasse facilmente. Analisando por partes, temos os fragmentos folhas e relva; folhas, talvez, simbolize esse aspecto natural e cru do ambiente selvagem da relva; por outro lado, ainda assim representa o instrumento que Whitman utilizou para colocar suas ideias no papel – folhas de papel. Já a relva representaria o florescer de suas palavras na mente do leitor, de um modo linear e sempre crescente, que nascesse do chão e se elevasse para o mundo. Folhas de relva nada mais seriam do que germinações profundas de Whitman, que definiriam seus ideais e seu ser como um todo. Folhas de Relva é do que um solo verde e fértil, que nasceu tímido, mas corajoso, que cresceu e germinou incontáveis frutos que alimentaram almas de todo o mundo!

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