3 de outubro de 2017

Resenha infantil • Um outro país para Azzi, de Sarah Garland

Falar com as crianças sobre assuntos delicados da nossa atualidade é sempre uma tarefa complicada - mas isso não quer dizer que devamos evitar essas conversas complexas, pelo contrário! Precisamos encontrar instrumentos que nos auxiliem a suavizar temas pesados e orientem nossos pequenos de acordo com sua idade e entendimento. Ainda bem que sempre podemos contar com bons amigos para nos auxiliar nessa tarefa: os livros! ♥

No mês das crianças iniciamos nossa seção de resenhas de livros infantis aqui no Amor Livrônico com o propósito de auxiliar mamães, papais e cuidadores a escolherem boas leituras para seus filhotes e promover discussões e conversas dentro de casa que reflitam boas energias para o mundo todo. Não deixe de nos acompanhar nessa aventura, mesmo se você não tiver nenhuma criança no seu convívio, pois nunca sabemos quando iremos cruzar com um pequenino precisando de uma palavrinha de amizade e uma boa sugestão de leitura.

Hoje iremos conhecer Azzi, uma simpática garotinha que de uma hora para a outra viu seu mundo desmoronar e virar de ponta cabeça. Vivendo num país em meio à guerra, Azzi e sua família só tiveram uma única alternativa para sobreviver: deixar tudo para trás, fugir para outro país e torcer para ser bem recebida. Assim, uma vida com tão poucos anos de existência viu-se obrigada a enfrentar a difícil missão de reinventar-se, adaptar-se numa nova cultura e reconstruir sua vida ao lado de sua família, sem nunca esquecer-se de onde veio.

Partamos agora com Azzi rumo à um novo mundo!



A história de Azzi

O livro começa com uma adorável garotinha sendo apresentada ao leitor - seu nome é Azzi. Não se sabe exatamente sua idade nem onde ela morava, mas conseguimos perceber que se trata de algum local que atualmente está em guerra, mais especificamente alguma região do Oriente Médio. A autora não especifica o país justamente para aproximar a história de Azzi com histórias que poderiam ser vividas por refugiados de qualquer outra nacionalidade. Sua vidinha transcorria "normalmente" mesmo estando num cenário de caos, assistindo diariamente casas ao lado da sua sendo destruídas e bombas caindo por todo lado. Até que um dia seu pai recebe um telefonema surpresa que deixa todos preocupados: Azzi e sua família teriam que fugir, pois permanecer em sua casa a partir daquele momento seria muito perigoso. Assim, a pequena parte rumo ao desconhecido com seus pais, deixando para trás sua casa, seus brinquedos, seus livros, e a pior parte: sua avó. Viajando por muito tempo, Azzi finalmente chega até um país novo em que a língua falada é diferente da sua, os alimentos oferecidos também são desconhecidos e todos os rostos são completamente estranhos. Determinada a refazer suas vidas, a família de Azzi tenta se reconstruir através de doações de alimentos, roupas e moradia, até que finalmente o pai de Azzi consiga um emprego. Nesse meio tempo, Azzi também é mandada para um novo colégio, o que parece completamente assustador no início, mas se torna com o tempo mais uma das grandes experiências que estão transformando a pequena numa mocinha muito valente! E é assim que pouco a pouco, a história da família de Azzi vai se misturando à história de tantas outras famílias que hoje fogem de seus países em busca de uma nova oportunidade de ser feliz e poder viver de forma segura e digna.



O acabamento do livro
Um outro país para Azzi é um livro de capa dura, escrito em formato de HQ e com páginas bem coloridas. Conforme a história se desenrola dentro dos balõezinhos, que se alternam em tamanho durante o texto, as crianças ganham a oportunidade não só de ler a história da pequena imigrante, mas também imaginá-la e materializá-la em suas mentes graças às lindas e delicadas ilustrações feitas pela própria autora que constituem toda a obra; são 40 páginas de muita aventura e conhecimento, que passam com maestria uma grande mensagem sobre a situação de imigrantes e refugiados no mundo e nos ajudam a lembrar das milhares de crianças que são obrigadas a enfrentar com coragem de gente grande verdadeiros pesadelos até chegar - com sorte - à um novo país e serem acolhidos para finalmente recomeçar. Um ponto muito interessante da obra é que ela foi escrita após um longo período vivido pela autora ao lado de famílias de refugiados, o que certamente contribuiu muito positivamente para passar ao leitor as dores e os sonhos que cada família carrega dentro da mala ao desembarcar num novo país. A editora responsável pela publicação é a Pulo do Gato, e você pode adquirir o seu exemplar clicando nos links abaixo:

           



O que ele ensina
Desempenhando papel fundamental na explicação da temática sobre imigração para crianças, Um outro país para Azzi não deixa de ser um relato emocionante que nos faz enxergar a crise social em que vivemos hoje sob os olhos de uma criança, de um ser indefeso cujo maior desejo é voltar para casa. Quando o livro menciona Azzi, certamente menciona também outras crianças sírias, libanesas, afegãs, haitianas e envolve muitos outros povos que também estão em crise, lutando pela sua sobrevivência e buscando a cada novo dia um motivo para ser forte e continuar sua caminhada rumo à liberdade. Apesar de falar abertamente sobre um assunto muito pesado, Azzi faz sua história se tornar leve perante seus sonhos de menina e faz brotar lágrimas dos nossos olhos não só de tristeza, mas principalmente por uma conscientização do nosso papel como acolhedores, auxiliadores e salvadores de outros semelhantes. Aos olhinhos atentos de uma criança, o livro ajuda a formar nela desde cedo sua responsabilidade perante outras pessoas, por mais distantes que elas possam estar agora; afinal, o que seria de Azzi se um novo país não a tivesse acolhido? Novas vidas estão sendo ceifadas pela ignorância humana, mas a mesma espécie que mata, também tem o dom de acolher. A história cria oportunidades não só para se debater sobre a guerra, mas também sobre fraternidade e união.


Um dos aspectos mais legais no livro é que ao mesmo tempo em que Azzi sabe que precisa se adaptar ao novo país, concentra-se em manter viva a cultura de seu povo, encontrando formas de agregá-la à sua realidade atual e ensiná-la também para as pessoas que estão à sua volta. Um dos exemplos disso é quando Azzi decide plantar grãos de feijão que seu pai trouxe de seu país no jardim da escola; a menina planeja fazer isso não somente para poder provar mais uma vez o seu prato preferido (feijão picante), mas sim, para fazer germinar um grande pé de feijão que possa alimentar todos os seus colegas da escola também. Como uma forma de agradecimento, Azzi não queria apenas usufruir do novo país, mas também, agregar nele um pouco de suas origens e do que ela carrega dentro de si. Impossível não se apaixonar pela história dessa imigrante sonhadora, e não se inspirar também a fazer a diferença na vida dessas pessoas que buscam proteção nas terras que um dia nos acolheram. Um outro país para Azzi planta uma semente dentro do coração de cada criança que o lê, e a envolve num abraço que garante que ela pode fazer a diferença para alguém e ajudar um semelhante a reconstruir o seu próprio mundo!


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