7 de fevereiro de 2018

Artigos • Ler ou não ler: eis a questão

Num mundo lotado de opções de coisas para se fazer, o ato de simplesmente ler pode se tornar até mesmo obsoleto para alguns - afinal, porque vou gastar 60 minutos da minha vida folheando e tossindo poeira, sendo que a HBO acabou de liberar uma nova temporada de Game of Thrones, não é mesmo? Não, não é mesmo. Assistir ao invés de ler: essa é uma realidade que está tomando conta da nossa geração, mas que ao invés de acrescentar, está retirando muita coisa de nós, e talvez a principal delas esteja no prazer de se perder em uma boa história através das páginas de um livro.

Mas afinal... quando foi que a leitura resolveu ficar em segundo plano em nossas vidas?


Bem, a resposta para essa pergunta é: ela não resolveu. Nós resolvemos.
Nós resolvemos deixá-la de canto, esperando por aquele momento do ócio do ócio para finalmente tocá-la e redescobrir o quanto é boa a sensação de ter um livro nas mãos. Esperamos aquela hora em que acaba a energia em nossas residências, e não temos outra opção a não ser buscar diversão através de coisas que não são ligadas na tomada ou não dependam de bateria para funcionar. Esperamos o colégio ou a faculdade nos obrigar a ler tal título, pois ele será tema de alguma prova ou atividade. Estamos sempre esperando e é nesse esperar que enquadramos a literatura hoje em categorias que certamente não fazem jus ao seu poder, sempre encarando-a como uma obrigação, uma atividade rasa ou ainda pior – uma mera distração secundária e substituível.


A questão é que há muito, muito tempo, livros eram verdadeiras relíquias. Para os religiosos, livros eram até mesmo objetos de salvação da humanidade. Quanto mais grossos, mais apetitosos pareciam e mais robustos ficavam nas vastas estantes das bibliotecas, escritórios ou até mesmo naquele cantinho pequeno preferido do quarto de dormir. Nos dias atuais, quanto mais grosso o livro, maior a chance dele ficar encalhado nas prateleiras das livrarias ou de receber murmúrios desgostosos dos estudantes perdidos em suas leituras de pré-vestibular. Quanto mais rebuscada sua linguagem, maior a probabilidade de se entender menos da metade dos diálogos. Quanto mais profunda sua análise sobre este ou aquele assunto, menores serão as chances dele ser considerado um bestseller mundial... pois tudo o que é profundo é denso; e densidade e rasidão são duas palavras que definitivamente não podem coexistir. É assim, que então, concluímos que sobrevivemos hoje em meio à uma sociedade rasa, que evitar mergulhar por medo de se afundar.

Mas então vamos tentar, pelo menos por um momento, adentrar novamente na imensidão literária e tentar incluir essas outras produções culturais – filmes e séries, em sua maioria – que já vem prontas, nesse universo tão imaginativo que os livros proporcionam. Muitas pessoas preferem hoje assistir imagens na televisão justamente por não terem mais que formá-las em suas mentes. Isso porque hoje representamos uma sociedade cansada – nós somos cansados. Pedimos comida ao invés de fazê-la. Silenciamos ao invés de discutir. Mandamos mensagem ao invés de ligar. Assistimos para não ter que ler. Tudo isso devido àquela famosa síndrome de Jaiminho: só para evitar a fadiga.

Realmente essa competição livros versus séries parece um pouco desleal se olharmos através de um panorama geral. Sim, assumimos que as produções da Netflix estão cada vez mais incríveis e que as séries da HBO estão cada vez mais cheias de efeitos fantásticos. O brilho e a nitidez de tudo o que a tela reflete em nossos olhos de fato encanta – só não encantaria mais, talvez, que a mágica proporcionada pelos nossos próprios cérebros ao formar essas mesmas belíssimas imagens, mas com uma intensidade ainda maior: uma intensidade só nossa. Afinal, ninguém mais imaginou uma Daenerys tão bela quanto eu. O enredo de 13 Reasons Why fluiu de modo completamente diferente dentro da minha cabeça. Não vou nem mencionar então o quanto gostei muito mais do desenvolvimento do meu Hobbit do que o criado por Peter Jackson. Ah, e meu Tyler Durden, apesar de ser tão rebelde quanto, jamais se pareceu com Brad Pitt em sua primeira luta na televisão. Ler... é isso. O livro te entrega uma folha de papel com alguns escritos aleatórios e quem os organiza é você. Quem molda cada personagem é você. Quem cria cada cenário - veja só - é você também!

Cada livro é único e nosso de um jeito pessoal e intransferível.

Veja bem: essa não é uma crítica às produções cinematográficas, mas sim, um apelo para que as duas expressões culturais coexistam juntas. Jamais deixe um livro de lado para assistir a uma série partindo da premissa que a série é mais trabalhada, mais bonita visualmente, mais fácil de se digerir. Divida o tempo e dedique um pouco dele para ambas das partes. Assista ao filme, mas não deixe de ler o livro! E se você leu o livro, que tal descobrir como ficou a adaptação para as telas dessa história que você leu? Fazendo isso, iremos potencializar ainda mais o efeito que a leitura produz em nós, nos tornaremos ainda mais reflexivos e certamente aumentaremos nossa capacidade de dedução, de crítica, de sensibilidade. Nenhuma produção cultural é mais importante que a outra, assim como nenhuma obra deve ser excluída para dar lugar à outra. Há tanta coisa boa nesse mundo para se aproveitar. Peguemos um pedacinho de cada coisa e partamos novamente em nossa viagem sem fim.


Assistir uma história criando vida diante de nossos olhos é incrível, mas sempre será a representação de uma viagem que alguém viveu e contou para você, e durante esse trajeto, muito pode ter sido perdido pois cada pessoa possui uma visão diferente de determinadas situações e uma sensibilidade interna que se difere de qualquer outra que exista no mundo e que habite qualquer outro ser além dele mesmo. Por isso, pegue um livro hoje. Sente-se confortavelmente em sua poltrona preferida. Não se esqueça de pegar uma manta e meias fofinhas, se estiver frio. Faça um chá, um chocolate quente. Respire fundo, sinta o cheiro da sua bebida misturando-se com o aroma das páginas. Abra sua obra e comece a reescrevê-la, moldá-la, criá-la. Agradeça ao autor por escrever um momento único dedicado à você. E assim, assista essa história ganhar vida e luz... mas dessa vez dentro de você!

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