18 de fevereiro de 2018

Resenha • O Seminarista, de Bernardo Guimarães

Nem mesmo um iminente escândalo da Igreja poderia ser capaz de separar duas almas pueris que nasceram para morrerem juntas. Mas seria esse amor forte o suficiente para fazer um homem deixar para trás sua santa vocação, ou ainda, para enfrentar as maiores maldades e mentiras humanas cometidas em nome da Divindade?

Na resenha de hoje conheça um clássico do Romantismo brasileiro composto por muita emoção e fortes críticas à organização social da época e aos padrões considerados como dignos e virtuosos, que ainda assim não se encontra tão distante assim da nossa realidade atual. Analise agora conosco o enredo da obra O Seminarista, nascida pelas mãos do escritor romântico Bernardo Guimarães.

"Eram como duas flores silvestres em botão, nascidas no mesmo hastil, nutrindo-se da mesma seiva (...), que balanceando-se às auras da solidão procuravam beijar-se trocando entre si eflúvios de amor..."


Clique para ouvir: Moment of Peace - Gregorian

Uma vida dedicada às missões eclesiásticas pode realmente parecer muito nobre e especial aos olhos de algumas pessoas – mas também pode representar um verdadeiro pesadelo para outras. Revogar-se de todas as paixões mundanas e vínculos materiais realmente não é uma tarefa fácil, mas ela pode se tornar ainda pior quando exige que coisas que estão sempre em nossa memória sejam esquecidas. Esse é o dilema enfrentado por Eugênio Antunes, moço bom e honesto do campo que sempre mostrou desde cedo ter verdadeira vocação para a vida clerical, dedicando sua infância à inúmeros planos reservados unicamente para sua futura missão de vida como padre. Ao seu lado sempre esteve a doce Margarida, afilhada dos pais do menino e filha de dona Umbelina, moradora de uma casinha simples no terreno do casal Antunes. Menina alegre e meiga, sempre acompanhou Eugênio durante sua meninice e esteve ao seu lado em todos os momentos de sua vida, representando uma verdadeira irmã para o rapaz. Só que esse sentimento fraterno tão infantil e casto cresceu junto com as crianças e fatalmente se tornou um amor puro e vívido, que passou a representar absolutamente tudo para os jovens. Certamente uma paixão tão arrebatadora não estava nos planos de ninguém, principalmente nos planos dos pais de Eugênio, cujo maior sonho era ver o filho se tornar um reverencioso padre. Respeitando assim uma suposta ordem natural das coisas, Eugênio é enviado para o seminário e afastado de sua maior tentação, uma cruel decisão que partiu em pedaços os corações de dois apaixonados que veem cada vez mais distante o sonho impossível e blasfêmico de ficarem juntos.


O acabamento

Comprei esse livro numa feira de livros no metrô Tatuapé, em SP, por apenas R$ 3,00! O que fazemos hoje em dia com R$ 3,00, minha gente? Absolutamente nada! E não era só esse exemplar que saía por esse preço, mas sim, todos os que estavam na feira. Essa é uma ação promovida pela distribuidora Top Livros, que eu sinto a maior alegria em divulgar. Sempre há essas ações espalhadas por aí, então fique atento, quem sabe uma delas não cruza seu caminho! De qualquer modo, era possível comprar vários livros – novos ou usados – por esse valor, inclusive grandes clássicos da nossa literatura, como o livro da resenha de hoje. Comprei esse exemplar d'O Seminarista novinho em folha, juntamente com vários outros títulos igualmente novos. Este foi lançado pela editora Ediouro, e seu preço baixo não é um representante de sua qualidade. Não tenho nada a reclamar do livro, seja de seu conteúdo ou de sua estética. O livro possui 159 páginas e mede 13,5 x 21, sem orelhas. Além do texto, acompanha uma introdução feita por M. Cavalcanti Proença, uma breve biografia do autor, cronologia da obra e até um folhetim que serve para guiar estudantes numa análise da obra, propondo perguntas que poderiam ser respondidas e debatidas em sala de aula. Por mais que não estejamos estudando o livro na escola, o folheto ainda assim é uma excelente oportunidade de olharmos o livro mais profundamente e retirarmos dele perguntas e respostas que nos auxiliem a compreender melhor o que a história nos quis nos dizer. Livros clássicos geralmente são encontrados a preços muito bacanas por aí, mas caso deseje realizar a leitura digital, clique no banner abaixo e tenha acesso ao link da obra em PDF para baixar ou ler online. Atualmente a obra está em domínio público :)

 O Seminarista

O livro O Seminarista ganhou ainda uma adaptação cinematográfica brasileira em 1977, numa produção dirigida por Geraldo Santos Pereira. O filme conta com a participação de atores como Raul Cortez e foi vencedor de muitos prêmios da época, inclusive no Festival de Gramado de 1977 e o Troféu APCA em 1978.


Por que você deve ler

Livros clássicos da literatura brasileira quase sempre possuíam uma função social, e frequentemente denunciavam alguma situação enfrentada pelo país, como um abuso, algum ideal não compactuado com o autor da obra, entre outros. Com O Seminarista não foi diferente, e o autor utilizou sua novela para denunciar temas corriqueiros que influenciavam de forma negativa a vida do brasileiro, como a predominância do patriarcado, a organização do sistema clerical como verdade absoluta e a desigualdade social perante às classes. Durante a leitura você não se envolve apenas no romance em si, mas também se envolve em todo o contexto social da obra, que automaticamente também representou um pedaço muito grande da história do nosso país.

"Que mudança radical de vida!... que meio tão diferente daquele que até então tinha vivido! Essa transplantação devia modificar profundamente a existência do arbusto tão violentamente arrancado do solo natal."

Você deve ler esse livro pois ele revela muitos dos nossos problemas em suas versões mais cruas, expondo feridas que muitos se esforçam para fechar. Percebe-se que existem duas versões de Eugênio – a versão que os seus pais imaginaram dele e a versão que ele realmente é – e é esse conflito causado ao personagem que o fará sentir toda sua agonia e desespero em vão. E cá entre nós, quantos Eugênios ainda não existem e sobrevivem embaixo das asas de seus pais, vivendo vidas prontas que foram moldadas unicamente para satisfação pessoal de seus genitores? Quantos músicos, artesãos, autônomos brilhantes estão deixando de existir, por serem sufocados por profissões que não moram em seus corações, por exemplo? O livro em si é extremamente atual e a história de Eugênio – tanto em relação à sua falta de autonomia perante a própria vida quanto ao impedimento de viver seu amor impossível – se mistura com a de milhares de jovens da nossa sociedade. É sempre bom nos confrontarmos com obras desse estilo, que nos fazem questionar realmente quanto nossa sociedade evoluiu com o passar dos anos, ou melhor dizendo, o quanto ela ainda regrediu. Dando destaque para o estilo de escrita de Bernardo, não poderíamos deixar de comentar o quanto a mesma é primorosa ao que se refere ao estilo literário ao qual pertence. É impossível ler quaisquer estrofes e não associá-las ao Romantismo, escola tão particular e que tantos suspiros tiram de seus admiradores. Para os amantes do gênero, o livro é um prato cheio para apreciação, uma vez que o autor se garante nas descrições detalhadas acerca dos episódios ocorridos entre os personagens. Desde numa cena romântica inocente até na descrição de um cenário do campo, cada linha traz consigo sentimentos únicos que são passados diretamente ao leitor, que não é capaz de se confundir quanto ao teor da história que se está lendo. Você irá imaginar e terá condições perfeitas para visualizar cada pequeno detalhe da história, uma vez que o autor se preocupa minuciosamente em descrever todos os momentos que são vividos no livro. O clima campestre, o farfalhar das folhas, o cheiro das frutas e até o murmúrio dos animais do campo podem ser ouvidos com clareza enquanto se lê as linhas envolventes criadas por esse inegável romântico.


Preste atenção!

Veja bem, leitor: O Seminarista representa uma literatura clássica, aquela leitura que os estudantes insistem em reclamar toda vez que o professor comenta, aquela que todo mundo é obrigado a ler pra passar de ano. Antes de tudo, desarme-se de seus preconceitos e esteja aberto para reconhecer o quanto nossa literatura era rica, tanto em ideais quanto em palavras. Não torça o nariz só de ler o título ou vasculhar algumas páginas da internet. Também pare de ler resumos reciclados. Leia você, mesmo que não seja o estilo que esteja acostumado, mesmo que você se julgue inexperiente quanto ao que se fala ali. A linguagem pode ser um pouco... ok, eu disse um pouco? Está bem: a linguagem é muito diferente do que estamos acostumados a ler hoje em dia. Há palavras difíceis, desconhecidas e até engraçadas, mas precisamos reconhecer o quanto se pode aprender com esse desafio. Se dê esta oportunidade de conhecer algo novo, e quem sabe até mesmo se apaixonar por um novo estilo de escrita e leitura que atinge diretamente à razão e o coração brasileiro.


Meu toque pessoal
Como admiradora da literatura clássica romântica, fui surpreendida por uma cativante história que possui vívida em si o frescor da juventude, ao mesmo tempo em que já carrega o peso da vida adulta. Caminhando com Eugênio e Margarida, percebemos como uma única decisão pode ser crucial para representar toda uma desestruturação pessoal, ou ainda mais: como um simples detalhe pode fazer ruir duas vidas que poderiam ter sido plenas em seus amores. Também nos mostra grandes lições sobre a impermanência das nossas ideias, uma vez que nossos objetivos de vida estão sempre em constante modificação, e isso é sim algo que precisa ser ouvido dentro de nós mesmos, se quisermos alcançar a felicidade. Em outros momentos, também, podemos refletir a respeito de uma das questões principais da obra, que se refere ao celibato clerical. Será mesmo possível ao homem reprimir seus desejos mais profundos e conviver com isso em paz, ou o único fim desse ser seria a loucura?

O fato é que a graciosidade da obra não se confere apenas em sua crítica social, mas principalmente em sua doçura retratada através do amor inocente entre Eugênio e Margarida e da tranquilidade da vida pastoral resumida em ricos detalhes. Cremos que o autor não se utilizou de sua obra tanto para criar polêmicas, mas sim para descrever uma grande história romântica baseada na realidade em que vivia na época. Embora possua seus pontos de tensão, como ao observarmos a agonia vívida dos amantes por desejarem a presença um do outro, ainda consideramos como uma novela fácil, rápida e simples de se compreender, uma vez que a história acontece de modo cronológico e natural.

"Fatal e deplorável poderio do fanatismo sobre um espírito novel e exaltado, acessível à todas as alucinações!"

Palmas mais uma vez para o autor, que ainda delicadamente tirou o véu da santidade clerical, mostrando que os "homens que falam por Deus" podem dizer muitos mais disparates do que um homem comum envolvido em suposto pecado. Não há santidade concreta quando falamos da Terra pois somos todos homens feitos da mesma carne, e qualquer censura aos instintos e necessidades humanas, ao invés da busca por compreendê-las, pode travar batalhas internas tão infernais quanto qualquer outra disputada no próprio Inferno – batalhas essas que podem até mesmo acabar com suas vidas ou com tudo aquilo de bom que ainda habitam os seres.


Curiosidade
O contexto histórico do Brasil na época estava extremamente propício para a obra. Um ano antes, o país estava enfrentando a chamada Questão Religiosa, episódio que abalou profundamente os laços entre o Estado e a Igreja – que outrora andaram lado a lado. Deste modo, a novela obteve ainda mais visibilidade da população, uma vez que todos os assuntos que remetiam à esse temas estava sendo de grande interesse por parte dos leitores.


Considerações finais

"Sua fala era uma vibração de amor, que alvoroçava os corações, o olhar como luz de lâmpada encantada, que fascina e desvaira; o sorriso era um lampejo de volúpia, que fazia sonhar com as delícias do Éden."

Aqui temos um relato breve de como algumas paixões da Terra podem ser comparadas à uma das riquezas mais puras do Céu. Eugênio seguiu a indicação dos pais ao ser mandado para o seminário em busca de pureza e de Deus, sem saber que tudo isso já vivia dentro do seu coração, e que carregava consigo outra joia ainda mais pura que ele – Margarida. Não havia mais nada para se procurar no exterior. E foi por seguir os passos dos que se dizem santos, que Eugênio viu todas as suas maiores virtudes serem devastadas e tiradas de si, tornando seu caminho amargo e amaldiçoado. Tudo isso fica ainda mais claro no final do livro, uma vez que Eugênio parece ter pela primeira vez o impulso para se libertar de tudo o que contribuiu para sua ruína interior, e seguir finalmente guiando a própria vida – por mais que seus caminhos tomados sejam desconhecidos pelo leitor. E é dessa forma que O Seminarista presenteia a literatura brasileira com mais um ponto positivo, mostrando mais uma obra que soube agregar valor às misérias vividas pela sociedade e retirar preciosas lições acerca de tudo o que é vivido por ela – por mais que estas sejam as mais cruéis desgraças.

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