2 de maio de 2018

Resenha infantil • O Homem-Pássaro, de Ricardo Dreguer


Em mais uma resenha infantil trazemos conosco hoje O Homem-Pássaro, uma história que ensina para as crianças um pouquinho mais sobre a magnífica experiência de voar – não com asas, mas sim com pernas (sim, pernas!), malas e esperanças empacotadas rumo ao desconhecido. Novamente entrando no contexto de chegadas e partidas realizadas por pessoas que saem de seus lares em busca de novas oportunidades, este adorável livro retrata as lutas, tristezas e vitórias não só do protagonista e de sua família, mas também de todos os nordestinos que partem do sertão em busca de uma vida mais justa na cidade grande. Voemos juntos!



A história é contada por Pedro, um cearense de Cariri que inicia sua narrativa falando um pouco sobre sua família e as origens de sua ancestralidade – sua tataravó é de origem indígena e seu tataravô era africano. Aos poucos as memórias e lembranças afetivas vão surgindo, o menino vai crescendo, se tornando um trabalhador, e as coisas corriam como pareciam que deveriam correr – até sua vida começar a desenrolar-se para lugares bem distantes da paisagem que conhecia. Num certo momento, seu tio lhe faz um convite que mudaria todo o curso de sua vida: o de ir para a cidade grande encontrar trabalho, o que representaria uma tentativa de libertar-se das correntes que condenam grande parte dos trabalhadores nordestinos a sempre servirem à um patrão, e nunca terem a oportunidade de serem donos de suas próprias terras. Após muito pensar, Pedro aceita a proposta e é aí que a maior aventura de sua vida começa; logo, Pedro já está espremido num pau-de-arara a caminho de São Paulo, carregando em seus sacos apenas o necessário para sua sobrevivência: alguns pertences, poucas roupas e muita, muita esperança de ser feliz.


O acabamento da obra

O Homem-Pássaro é publicado pela editora Moderna, tradicionalíssima no quesito de literatura infantil e didática. A capa é muito bonita, com detalhes envernizados e uma mistura de imagens desenhadas com fotos reais – brincadeira esta que acontece durante todo o livro, aliás. O autor é Ricardo Dreguer, que além de escritor também é professor formado em História pela Universidade de São Paulo. Este livro faz parte de uma coleção chamada Antepassados, cujo objetivo é justamente explorar as vidas e as descendências dos brasileiros e mostrar que sempre há uma mistura de vários outros sangues, raças e cores com as nossas. Segundo a editora, a obra é indicada para crianças de 8 a 10 anos, mas com certeza agradará todas as idades – até os mais grandinhos, como eu! São 52 páginas muito coloridas e didáticas, com textos de fácil entendimento e separados por capítulos curtinhos carregando nomes como Origens, Mudanças e Saudades, contribuindo assim para um desenrolar suave e natural da história. O livro é fino, de fácil manuseio e suas medidas são 20x24. No final, possui uma página dupla que faz um paralelo cronológico muito interessante entre os acontecimentos da vida de Pedro e grandes episódios que marcaram a história do Brasil. Caso você seja professor, aproveite para clicar aqui e baixar um material especial elaborado pela editora, com sugestões de inserção desta obra no contexto da sala de aula.


O que ela ensina


Esse é um livro extremamente carismático, principalmente por trazer de forma tão simples uma questão tão complicada de ser vivida e analisada. Muito se fala das rotinas dos imigrantes que fizeram suas vidas no Brasil após deixarem tudo para trás, mas algo que não deve ser esquecido é que esses processos de transição continuam acontecendo cada vez com mais intensidade, e também dentro do nosso próprio país – as chamadas migrações. Antes de qualquer coisa, a mensagem principal do livro remete à empatia, pois trará identificação imediata para a criança que atualmente é migrante ou que possui membros da família atuando como migrantes, ao mesmo tempo em que trará profundas reflexões também àquela criança que não possui nenhuma experiência direta com migrações, mas que ganha a oportunidade de se colocar no lugar do outro e vivenciar jornadas que talvez nunca pudessem ser vividas de outra forma senão através de histórias como esta. O Homem-Pássaro conta em detalhes como é viver naturalmente como uma ave, que se desloca frequentemente até encontrar o melhor lugar para construir seu ninho e firmar residência; voa incansavelmente até sentir-se satisfeito com a direção a qual os ventos a levaram. Pedro demorou muito para encontrar o seu canto nesse país e também precisou trabalhar duro para conquistar o seu lugar e provar o seu valor, mas toda luta em algum momento chega ao fim, e a dele teve um final feliz.


Alguns dos conceitos principais que envolvem a obra estão relacionados com cidadania, ética e pluralidade cultural, expandindo assim os horizontes da criança que lê por mostrar que nosso país é vasto e vai muito além do que seus olhinhos podem ver através da televisão ou simplesmente no seu convívio social diário. Grandes lições sobre diversidade são aprendidas, de modo que as migrações certamente nunca mais serão entendidas da mesma maneira e terão papel incisivo daqui pra frente na formação não só dos indivíduos, mas também de suas opiniões e ideais a respeito de seu povo.
O livro também tem o poder de explorar a questão do preconceito vivido pelos nordestinos ao cruzar as barreiras do sertão, mostrando que as pessoas fazem distinção e segregam não só estrangeiro, mas até mesmo outras pessoas vindas do seu próprio país! Em certo momento, já em São Paulo, Pedro explica que outros rapazes que moram no mesmo cortiço que ele o apelidaram de "Baiano", e que não adiantava explicar para essas pessoas que ele era cearense – para os outros, nordestinos eram todos iguais. O simples fato de ser um migrante nordestino condena as pessoas a restringirem-se à um único grupo, como se não como se ali não fosse o lugar deles. Mas também era.

Outro ponto interessantíssimo da obra também relaciona-se com as dificuldades de adaptação do migrante à sua nova vida e da exposição do quanto uma cultura pode mudar simplesmente de um estado para o outro, dentro de um mesmo país. Um exemplo disso encontra-se no clima e na alimentação, já que Pedro não estava acostumado com o típico friozinho da cidade da garoa, muito menos em comer macarronada no jantar; teve que aprender a conviver com tudo isso e adaptar-se à uma rotina tão intensamento diferente da sua. Deixar de comer todos os dias sua farinha com carne-seca não foi fácil, mas certamente essa foi apenas mais uma das dificuldades vencidas por Pedro – uma das mais fáceis, diga-se de passagem, perto de tudo o que ele já enfrentou até chegar até ali.


Considerações finais
E assim, finalmente o Homem-Pássaro encontrou seu ninho. Parou de voar e aconchegou-se à família que criou em São Paulo, após muitos anos de voos por aí. E é com essa sensação de missão cumprida que o leitor termina o livro, sabendo que mais cedo ou mais tarde todos nós encontraremos nossos lugares, por mais que às vezes eles estejam muito longes do nosso ponto de partida. Se o que importa não é o destino, mas sim a viagem, Pedro soube ser um bom viajante e aproveitou todos os aprendizados que a vida pôde lhe oferecer, pois mais que isso também tenha trazido boas doses de cansaço e saudade. A verdade é que somos e sempre seremos pássaros – grandes viajantes incansáveis procurando um ninho confortável e feliz para pousar!


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